domingo, 4 de fevereiro de 2018

A explicação da parte não compreendida

Daniel 9 é um dos capítulos mais notáveis do Antigo Testamento, dentre aqueles que se referem à primeira vinda de Cristo. Remove, definitivamente, a interpretação destorcida referente à Antíoco, que ficou em aberto no capítulo 8, dá sequência ao tema do juízo e leva-o até à véspera da Segunda Vinda do Senhor, em glória e majestade.
Apenas dois anos antes da libertação do cativeiro babilônico, mas já no Império Persa, encontramos o velho profeta no curso de mais uma sentida oração, descrita nos primeiros dezenove versos deste capítulo altamente significativo. Ele continuava intercedendo pela reconstrução do Santuário destruído e pelo seu povo, só que agora ele não mais apresentava dúvidas a respeito da profecia citada em Jeremias 25: 11 que tratava do fim das assolações de Jerusalém, conforme as suas primeiras palavras:
“No primeiro ano de Dario, filho de Assero, da linhagem dos medos, o qual foi constituído rei sobre o reino dos caldeus, no primeiro ano de seu reinado, eu, Daniel, entendi, pelos livros, que o número de anos, de que falara o Senhor ao profeta Jeremias, que haviam de durar as assolações de Jerusalém, era de setenta anos”. Daniel 9: 1-2.
Agora que faltavam apenas dois anos para o retorno do povo de Deus para a sua terra, e que Ciro, o libertador, já estava às portas do novo reino, a preocupação de Daniel era de outra natureza: ele não via ninguém preocupado com o profetizado retorno para Jerusalém. Os judeus pareciam estar indo muito bem no cativeiro e em nada preocupados com a prometida libertação.
Identificando-se com os que não correspondiam à expectativa divina, o profeta exprime profundo pesar, no verso 3; adora a Deus, no verso 4, e confessa o pecado específico de não escutarem a palavra de Deus, nos versos 5 e 6, como segue:
“Voltei o rosto ao Senhor Deus, para O buscar com oração e súplicas, com jejum, pano de saco e cinza. Orei ao Senhor meu Deus, confessei e disse: ah! Senhor! Deus grande e temível, que guardas e aliança e a misericórdia para os que Te amam e guardam os Teus mandamentos; temos pecado e cometido iniquidades, procedido perversamente e fomos rebeldes, apartando-nos dos Teus mandamentos e dos Teus juízos; e não demos ouvidos aos Teus servos, os profetas, que em Teu nome falaram aos nossos reis, nossos príncipes e nossos pais, como também a todo o povo da terra”.
 Na sequência, perfeitamente alinhado com o relato de Jeremias 25: 8, ele exalta nos versos de 7 a 15, três características de Deus: justo (no verso 7), misericordioso e perdoador (no verso 9) e, reconhecendo que Deus apenas não impediu o mal (no verso 14), pede-Lhe perdão. 
“A Ti, ó Senhor, pertence a justiça, mas a nós, o corar de vergonha, como hoje se vê; aos homens de Judá, os moradores de Jerusalém, todo o Israel, quer os de perto, quer os de longe, em todas as terras por onde os tens lançado, por causa das suas transgressões que cometeram contra Ti. Ó Senhor, a nós pertence o corar de vergonha, aos nossos reis, aos nossos príncipes e aos nossos pais, porque temos pecado contra Ti. Ao Senhor nosso Deus, pertence a misericórdia e o perdão, pois nos temos rebelado contra Ele e não obedecemos a voz do Senhor, nosso Deus, para andarmos nas Suas leis, que nos deu por intermédio de Seus servos, os profetas. Sim, todo o Israel transgrediu a Tua Lei, desviando-se, para não obedecer à Tua voz; por isso, a maldição e as imprecações que estão escritas na Lei de Moisés, servo de Deus, se derramaram sobre nós, porque temos pecado contra Ti. Ele confirmou a Sua palavra, que falou contra nós e contra os nossos juízes que nos julgavam, e fez vir sobre nós grande mal, porquanto nunca, debaixo de todo o céu, aconteceu o que se deu em Jerusalém. Como está escrito na Lei de Moisés, todo este mal nos sobreveio; apesar disso, não temos implorado o favor do Senhor, nosso Deus, para nos convertermos das nossas iniquidades e nos aplicarmos à Tua verdade. Por isso, o Senhor cuidou em trazer sobre nós o mal e o fez vir sobre nós; pois justo é o Senhor, nosso Deus, em todas as Suas obras que faz, pois não obedecemos à Sua voz. Na verdade, ó Senhor, nosso Deus, que tiraste o Teu povo da terra do Egito com mão poderosa, e a Ti mesmo adquiriste renome, como hoje se vê, temos pecado e procedido perversamente”.
Nos versos de 16 a 19, Daniel suplica pelo Santuário que foi assolado por Nabucodonosor, e pelo seu povo:
“Ó Senhor, segundo todas as Tuas justiças, aparte-se a Tua ira e o Teu furor da Tua cidade de Jerusalém, do Teu santo monte; porquanto por causa de nossos pecados, e por causa da iniquidade de nossos pais, se tornaram Jerusalém e o Teu povo opróbrio para todos os que estão em redor de nós. Agora, pois, ó Deus nosso, ouve a oração do Teu servo, e as suas súplicas e sobre o Teu Santuário assolado faze resplandecer o Teu rosto, por amor do Senhor. Inclina, ó Deus meu, os Teus ouvidos, e ouve; abre os Teus olhos, e olha para a nossa desolação, e para a cidade que é chamada pelo Teu nome porque não lançamos as nossas súplicas perante a Tua face fiados em nossas justiças, mas em Tuas muitas misericórdias. Ó Senhor, ouve; ó Senhor, perdoa; ó Senhor, atende-nos e age; não Te retardes, por amor de Ti mesmo, ó Deus meu; porque a Tua cidade e o Teu povo são chamados pelo Teu nome”.     
Notemos que, ao longo de toda a sua sincera oração, em nenhum momento Daniel pede explicações a respeito da dúvida guardada em sua última visão, concernente a purificação do Santuário, porque agora ele não tem mais aquela dúvida. No entanto, em resposta a sua oração, apareceu-lhe na ocasião, novamente o anjo Gabriel, falando daquela visão, conforme a passagem abaixo:
“Falava eu ainda, e orava, e confessava o meu pecado e o pecado de meu povo Israel, e lançava a minha súplica perante a face do Senhor, meu Deus, pelo monte santo de meu Deus. Falava eu, digo, falava ainda na oração, quando o homem Gabriel que eu tinha presenciado na minha visão ao princípio, veio rapidamente, voando, e me tocou à hora do sacrifício da tarde. Ele queria instruir-me, falou comigo, e disse: Daniel, agora saí para fazer-te entender o sentido. No princípio das tuas súplicas, saiu a ordem, e eu vim, para te declarar, porque és mui amado; considera, pois, a coisa, e entende a visão”. Daniel 9: 20-23.
O anjo só podia estar falando da visão documentada no capítulo 8 porque a palavra visão, empregada pelo anjo, hazon no original hebraico, é a mesma que foi usada para a visão geral do capítulo oito. Como o profeta não havia mencionado nada sobre visão nos primeiros dezenove versos do capítulo nove, o anjo só poderia estar se reportando a visão geral do capítulo anterior, recebida anos atrás.
O Senhor, certamente, aguardou o tempo necessário para que o velho profeta removesse as dúvidas infundadas sobre à purificação do Santuário terrestre, para concluir a explicação a respeito do Santuário celestial e, para isso, aproveitou esta ocasião em que o profeta clamava pela Sua providência.
Outra coisa que chama a atenção é que quando o anjo Gabriel começou a explicar a parte que não ficou esclarecida em Daniel 8, ele utilizou outra palavra hebraica para visão: mareh, a mesma que foi usada para a visão dos dois mil e trezentos dias proféticos, que ficaram sem explicação, conforme os dois últimos versos do capítulo oito:
“A visão (mareh) da tarde e da manhã... Eu, Daniel, espantava-me com a visão (mareh) e não havia quem a entendesse”. Daniel 8: 26-27.
A seguir, pois, a explicação da mareh apresentada a partir de Daniel 9: 24 confirma a hipótese do íntimo relacionamento entre os dois capítulos. Não devemos esquecer que a parte da profecia referida em Daniel 8: 26 como sendo para o tempo determinado do fim havia sido preservada mesmo sem o seu devido entendimento e, agora, onze anos depois, recebe a devida interpretação:
“Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo, e sobre a tua santa cidade para fazer cessar a transgressão, para dar fim aos pecados, para expiar a iniquidade, para trazer a justiça eterna, para selar a visão e a profecia, e para ungir o Santo dos santos”.
A palavra: determinadas, traduzida de ‘chatak’, do original hebraico, significa literalmente: cortadas, amputadas. Assim, as setenta semanas só poderiam ser cortadas de um período mais longo de tempo, como a dos 2.300 anos de Daniel 8: 14.
Uma vez esclarecida esta parte, temos que considerar o fato destas setenta semanas não serem literais, em face dos seis itens que elas abrangem: para fazer cessar a transgressão (a ser alcançado somente no tempo de angústia, conforme referido em Zacarias 13: 1, já próximo ao final do tempo de graça), para dar fim aos pecados (somente possível no juízo investigativo, no tempo do fim), para expiar a iniquidade (o que foi realizado na cruz), para trazer a justiça eterna (o que haverá de acontecer somente na Segunda Vinda de Jesus), para selar a visão e a profecia (concretizada na unção de Jesus), e para ungir o Santo dos santos (ocorrido em 27 d. C. após o batismo de Jesus). Destes sinais, os que não eram específicos para o tempo do fim, ocorreram por ocasião da unção do Messias e de Sua morte na cruz.
Os dois últimos itens merecem destaque pela sua importância com relação ao nosso estudo, pois esta visão profética que leva ao início do juízo deveria ser selada, ou seja, garantido o seu cumprimento, para não deixar margem de dúvidas, o que aconteceu realmente na unção de Jesus pelo Espírito Santo de Deus.
E quando deveria começar esse período que levaria, entre outras coisas, à unção do Santo dos santos e ao começo de Seu ministério terrestre? A resposta nós a encontramos em Daniel 9: 25:
“Sabe, e entende: desde a saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém, até ao Ungido, ao Príncipe, sete semanas e sessenta e duas semanas: as praças e as circunvalações se reedificarão, mas em tempos angustiosos”.
Este verso é de excepcional importância porque fixa o começo das setenta semanas de anos na saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém e seus muros, permitindo, desta forma definir o ano certo do começo do ministério terrestre de Jesus.
Este decreto providencial foi referido em Esdras 6: 14:
“... segundo o decreto de Ciro, de Dario e de Artaxerxes, rei da Pérsia”, o qual foi datado em Esdras 7: 7, por ocasião do envio de Esdras a Jerusalém, como segue:
“Também subiram a Jerusalém alguns dos filhos de Israel, dos sacerdotes, dos levitas, dos cantores, dos porteiros e dos servidores do templo, no ano sétimo do rei Artaxerxes”.
Finalmente, em Esdras 7: 25, Artaxerxes I fez as provisões para a restauração da completa autoridade civil, judicial e religiosa dos judeus em sua pátria:
“Tu, Esdras, segundo a sabedoria do teu Deus, que possuis, nomeia magistrados e juízes, que julguem a todo o povo que está dalém do Eufrates, a todos os que sabem as leis de teu Deus, e ao que não as sabem, que lhas façam saber”.  
C. Ceram, C. W em Deuses, Túmulos e Sábios, 8ª Ed. São Paulo: Melhoramentos, 1959, no final do livro apresenta uma planilha que nos mostra os anos em que vários reis e imperadores começaram a reinar. De acordo com esta planilha, cientificamente comprovada, Artaxerxes começou a reinar no ano de 464 a. C. Logo, o sétimo ano de Artaxerxes fica situado, historicamente, em 457 a. C. Assim, no final das primeiras sessenta e nove semanas (483 anos), a partir de 457 a. C. a História chega ao ano 27 d. C. quando Jesus foi realmente batizado. Isso ocorreu no décimo quinto ano de reinado de Tibério César (Lucas 3: 1), o qual começou a reinar no ano 12 d. C. por causa da doença de seu pai, César Augusto Otaviano. Foi nessa ocasião que surgiu João Batista pregando o batismo de arrependimento para remissão de pecados (Lucas 3: 3). E no verso 21, deste mesmo capítulo de Lucas, encontramos a unção do Santo dos santos:
“E aconteceu que, ao ser todo o povo batizado, também o foi Jesus; e estando Ele a orar, o céu se abriu, e o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma corpórea como pomba; e ouviu-se uma voz do céu: Tu és o Meu Filho amado, em Ti Me comprazo”.
Quando Jesus foi ungido pelo Espírito Santo, já havia sido batizado. A palavra Ungido corresponde às palavras Messias, no hebraico e Cristo, no grego. Cumpriu-se, assim, rigorosamente, a primeira parte da profecia, trazendo consigo o selo de garantia para o cumprimento do restante da mesma, que leva ao início do tribunal de Deus. E, no início de Daniel 9: 26, vemos a continuidade do ministério de Jesus, seguido de Sua morte na cruz, outro item profetizado:

“Depois das sessenta e duas semanas será morto o Ungido e já não estará; e o povo de um príncipe, que há de vir, destruirá a cidade e o Santuário, e o seu fim será num dilúvio, e até ao fim haverá guerra; desolações são determinadas”.
Assim, depois das sessenta e duas semanas que se seguiram às sete primeiras semanas, isto é, após sessenta e nove semanas, a segunda coisa importante que deveria acontecer para selar a profecia se concretizou: A morte do Messias, no ano 31 d. C., para “expiar a iniquidade”.
Outro fato significativo relacionado no verso vinte e seis foi que a cidade reconstruída bem como o seu Santuário seriam novamente destruídos, desta vez pelo povo de outro príncipe que ainda estava para vir. Esta profecia teve seu cumprimento no ano 70 d. C. quando Tito, então futuro imperador romano, comandou a destruição de Jerusalém. A partir de então o povo judeu vem sendo envolvido em guerras e desolações, até hoje. Daniel 9: 27 conclui a profecia:

 “Ele fará firme aliança com muitos por uma semana; na metade da semana fará cessar o sacrifício e a oferta de manjares; sobre a asa das abominações virá o assolador, até que a destruição, que está determinada, se derrame sobre ele”.
A interpretação tradicional deste verso aplica o mesmo na sequência imediata das sessenta e nove semanas. Neste sentido, Jesus teria morrido ao cabo de três anos e meio do Seu ministério, justamente no meio da septuagésima semana de anos, cessando a necessidade do sacrifício no templo, conforme é entendido pelo rasgar do véu, em Mateus 27: 51:
“Eis que o véu do Santuário se rasgou em duas partes, de alto a baixo; tremeu a terra, fenderam-se as rochas”.
Vemos, sob este ângulo de interpretação desta profecia que Deus não somente revela o futuro, como também dirige, molda e controla-o. E, considerando-se que as primeiras setenta semanas de anos, destacadas dos 2300 anos, foram cumpridas até o ano 34 d. C. com o apedrejamento de Estêvão e ulterior perseguição dos cristãos, pelos líderes judeus, o tempo destinado à nação israelita teria então se extinguido, o que foi sacramentado na destruição de Jerusalém e do templo no ano70.
Restaram, contudo, 1810 anos no escopo desta profecia dos dois mil e trezentos anos. Este período leva a História até ao outono de 1844, quando o Santuário, finalmente, deveria começar a ser purificado. Como o Santuário israelita, na ocasião, ainda estava em ruínas, o único Santuário que poderia ser purificado era o celestial, citado em Hebreus 8: 1-5 e 9: 11-12. A sua purificação implicava na eliminação dos pecados escritos nos livros do céu, por meio do juízo investigativo. A Fig. 3 ilustra esta fantástica profecia.
FIG. 3 – DANIEL 8: 14 – O TEMPO DA PURIFICAÇÃO DO SANTUÁRIO

                
              Uma segunda interpretação, trazendo a septuagésima semana de anos (verso vinte e sete) para o tempo do fim, conforme foi considerada na seção 1.4.1 do primeiro capítulo do livro “O juízo de Israel”, não altera em nada o início do dia do juízo de Deus. Acreditamos que haja elementos suficientes para sustentar as duas hipóteses.

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