De
acordo com as palavras do anjo Gabriel, a segunda parte da profecia de Daniel 8
deveria se projetar para os últimos dias:
“Entende filho do
homem, pois esta visão se refere ao tempo
do fim”. Daniel 8: 17.
Sendo
assim ela é, pois, de nosso particular interesse. Daniel, no entanto,
deprimiu-se quando o anjo deu ênfase ao tempo do cumprimento profético,
conforme lemos em Daniel 8: 18-19:
“Falava ele comigo
quando caí sem sentido, rosto em terra; ele, porém, me tocou e me pôs em pé no
lugar onde eu me achava; e disse: Eis que te farei saber o há de acontecer no
último tempo da ira; porque esta visão se refere ao tempo determinado do fim”.
O
profeta passou mal porque confundiu a explicação desta parte da profecia com a
purificação do Santuário assolado por Nabucodonosor, imaginando que o mesmo somente
seria purificado no último tempo.
Vamos,
pois, a Daniel 8: 10-11 onde começa a descrição desta segunda parte da
profecia, para entendermos melhor a reação do profeta. Ela inicia tratando do
chifre pequeno, já na sua fase eclesiástica, e informa que ele...
“Cresceu até atingir o
exército dos céus; e alguns do exército e das estrelas lançou por terra e os
pisou. Sim, engrandeceu-se até ao Príncipe do exército; dele tirou o sacrifício
costumado e o lugar do Seu Santuário foi deitado abaixo”.
Para
entender melhor estes dois versos, precisamos rever alguns conceitos:
O
primeiro deles é o de que o Príncipe dos exércitos, neste texto, é o Filho de
Deus porque em Josué 5: 14 Ele aparece recebendo adoração:
“Respondeu ele: Não;
sou Príncipe do exército do Senhor e acabo de chegar. Então, Josué se prostrou
com o rosto em terra, e o adorou, e disse-Lhe: Que diz meu Senhor ao Seu
servo?”
Em
segundo lugar, o exército dos céus refere-se aos santos do Altíssimo, conforme
a explicação de Daniel 8: 24, já citada. Vejamos, só para confirmar, o
enunciado de Daniel 12: 3:
“Os que forem sábios,
pois, resplandecerão como o fulgor do firmamento; e os que a muitos conduzirem
à justiça, como as estrelas, sempre e eternamente”.
Finalmente,
o sacrifício costumado ou contínuo consistia na oferta de dois cordeiros que o
sacerdote sacrificava no pátio do Santuário de Israel, um pela manhã e outro à
tarde, em favor dos judeus que não podiam chegar ao templo. Como este ritual
visava à remissão dos pecados dos adoradores ausentes, ele representava um tipo
do futuro ministério sacerdotal de Cristo no céu, quando Este intercede
continuamente por nós, conforme Hebreus 7: 25:
“Por isso, também pode
salvar totalmente os que por Ele se chegam a Deus, vivendo sempre para
interceder por eles”.
Apesar
da palavra sacrifício ter sido acrescentada pelos copistas, não alterou a
realidade do texto que, de fato, está fazendo alusão a uma substituição
arbitrária da intercessão contínua desenvolvida por Jesus Cristo, no céu, por
outro sistema, de natureza pagã, realizado por meio de simples mortais, no
confessionário, pretendendo interceder e perdoar pecados, o que é feito,
também, por meio de santos e de imagens, que o bispo romano estabeleceu na
Terra.
O
texto de Daniel 8: 25 atribui outras características ao chifre pequeno, como
segue:
“Por sua astúcia nos
seus empreendimentos fará prosperar o engano, no seu coração se engrandecerá, e
destruirá a muitos que vivem despreocupadamente; levantar-se-á contra o
Príncipe dos príncipes, mas será quebrado sem esforço de mãos humanas”.
Esta
astuciosa manobra religiosa, em oposição às Escrituras, mostra os ataques do chifre
pequeno aos filhos de Deus que viviam despreocupadamente, matando mais de
cinquenta milhões deles durante os seus 1260 anos de supremacia.
Após
estes esclarecimentos, sigamos com a profecia, em Daniel 8: 12:
“O
exército lhe foi entregue, com o sacrifício costumado (ritual hebreu que apontava
para a futura intercessão de Jesus); e
deitou por terra a verdade (incluindo a mudança nos Dez Mandamentos); e o que fez prosperou”. Parênteses
acrescentados.
Mas,
por seu atrevimento, o chifre pequeno não ficará impune. No tempo certo, será quebrado
sem esforço de mãos humanas, porque só Deus poderá trazer esse poder
eclesiástico corrupto a um fim definitivo.
Diante desta escalada do chifre pequeno, surge a grande pergunta de
Daniel 8: 13:
“Depois ouvi um santo
que falava; e disse outro santo àquele que falava: Até quando durará a visão do
costumado sacrifício, e da transgressão assoladora, visão na qual era entregue
o Santuário e o exército, a fim de serem pisados”?
Em
outras palavras, até quando prevalecerão estas transgressões do papado, que
estariam massacrando os santos, deitando por terra a verdade e usurpando o
papel de Jesus como ministro do Santuário celestial? A resposta vem no verso
quatorze:
“Ele me disse: Até duas mil e trezentas tardes
e manhãs; e o Santuário será purificado”.
Este
é o ponto culminante tanto desta profecia, como de todo o livro de Daniel e,
quiçá, de toda a Bíblia, porque nos conduz diretamente à sala do tribunal
divino, onde todos nós um dia compareceremos como réus.
O
profeta Daniel, com razão, deve ter pensado, inicialmente, no juízo de Deus que
se processava uma vez por ano em Israel, consistindo na remoção dos pecados que
eram transferidos para o Santuário terrestre durante o ano. E, como na época
desta visão, ele continuava sem compreender a relação que a mesma poderia ter
com os setenta anos de cativeiro predito por Jeremias, acabou desmaiando e, por
isso, o restante de sua explicação teve de ser adiada para a visão do capítulo
nove, ocorrida onze anos mais tarde.
Contudo,
o verso vinte e seis, que provê a explicação para o conteúdo do verso quatorze,
revela, novamente, que esta profecia não poderia se referir à purificação do
Santuário terrestre, profanado há pouco tempo por Nabucodonosor, uma vez que “a visão da tarde e da manhã, que foi dita,
é verdadeira; tu, porém, preserva a visão, porque
se refere a dias ainda mui distantes”.
Confundido
em seus pensamentos, no verso 27 o profeta conclui o capítulo oito, dizendo:
“Eu, Daniel enfraqueci, e estive enfermo
alguns dias; então me levantei e tratei dos negócios do rei. Espantava-me com a
visão, e não havia quem a entendesse”.
Como
a parte da visão relacionada com o carneiro e com o bode foi perfeitamente
detalhada, a parte nebulosa faz referência apenas às duas mil e trezentas
tardes e manhãs, isto é, aos dois mil e trezentos dias, conforme a linguagem de
Gênesis 1: 5:
“Chamou Deus à luz Dia,
e às trevas, Noite. Houve tarde e manhã, o primeiro dia”.
Considerando
que esta profecia se refere a dias ainda mui distantes (repetido por três
vezes), estes dois mil e trezentos dias não poderiam ser literais e sim
proféticos, porque em linguagem profética cada dia representa um ano, conforme
a chave de interpretação abaixo, provida pelo profeta Ezequiel:
“Quarenta dias te dei,
cada dia por um ano” ... - Ezequiel 4: 7.
Apesar de tudo, alguns intérpretes das
Escrituras defendem a literalidade das duas mil e trezentas tardes e manhãs e
as aplicam ao período em que Antíoco Epifânio, um descendente de Celeuco, da
Síria, dominou a Palestina quando, na tentativa de helenizar os judeus, ofereceu
um porco em holocausto, no templo de Jerusalém, obrigando os judeus a fazer o
mesmo.
Esta aplicação sugerida pelo tradutor em
Daniel 8: 9 é incorreta porque no livro apócrifo de I Macabeus, 1: 54-59 e 4:
52-54 é dito que Antíoco interrompeu os serviços do templo durante três anos e
dez dias (do 15º dia do mês de Chislev do ano 168 até o 25º do mês de Chislev
do ano 165). Este período foi, portanto de 1090 dias literais. Mesmo
considerando-se fortuitamente cada tarde e manhã como sendo apenas meio dia de
vinte e quatro horas e dividindo assim as 2300 tardes e manhãs por dois,
obtemos 1150 dias literais e não os 1090 dias da opressão de Antíoco sobre os
judeus. Este raciocínio não se ajusta, portanto, ao tempo especificado em
Daniel 8: 14. E isto sem contar que o enunciado da profecia se reporta por três
vezes ao tempo determinado do fim, isto é, ao nosso tempo.
A confusão de muitos evangélicos, envolvendo Antíoco,
foi estabelecida porque o livro apócrifo de I Macabeus 1: 54 fez-se uma aplicação
indevida à frase ‘sacrilégio desolador’, de Daniel 9: 27, àquilo que Antíoco
Epifânio fez em relação ao templo judaico no AT.
Este erro dos apócrifos, infelizmente, tem
desencaminhado o entendimento de muitos católicos e evangélicos sinceros.
Outro detalhe interessante é o de que o
próprio Senhor Jesus, referindo-se a essa mesma expressão: o abominável da
desolação, em Mateus 24: 15 fez referência a um evento futuro de seu tempo, o
que está de acordo com o enunciado de Daniel, que se reporta claramente ao
tempo do fim.
“Quando, pois, virdes o abominável da desolação de que falou o profeta
Daniel, no lugar santo (quem lê entenda)”.
Vamos
agora passar para a parte da profecia de Daniel 8 que não foi compreendida por
Daniel
Nenhum comentário:
Postar um comentário