Esta ideia de uma terceira Entidade
divina só ganhou expressão em fins do século II e início do século III, em
decorrência do rito batismal que já vinha sendo praticado em Roma, em nome do
Pai, do Filho e do Espírito Santo, bem como do Credo católico, estruturado na
crença nestas três ‘pessoas’ divinas. E para dar consistência à essas
iniciativas romanas, os tradutores e/ou copistas adicionaram as palavras que se
encontram na segunda parte de Mateus 28: 19, negritadas a seguir:
“Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do
Espírito Santo, ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho
ordenado... – Mateus 28: 19-20.
Estas
palavras negritadas atribuídas a Cristo nunca saíram de Sua boca e nem aparecem em nenhum outro texto em
que esta Grande Comissão foi repetida. Segundo Joseph Ratzinger, o
papa emérito Bento XVI, o texto negritado é totalmente alheio ao Novo
Testamento, tendo sido uma invencionice de Roma. Vejamos a íntegra do seu
depoimento na primeira edição de seu livro: Introduction to Christianity, p.
82-83:
“The basic form of our (Matthew 28-19 Trinitarian)
profession of Faith took shape during the course of the second and third
centuries in connection with the cerimony of baptism. So far as its place of
origin is concerned, the text (Matthew 28: 19) came from the city of Rome. The
trinity baptism and text of Matthew 28: 19 therefore did not originate from the
original church that started in Jerusalem around AD 33. It was rather as the
evidence proves a later invention of Roman Catholicism completely fabricated.
Very few know about these historical facts”. Introduction to Christianity by
Joseph Ratzinger.
Traduzindo, temos:
“A forma básica da nossa
profissão de fé trinitariana (Mateus 28: 19) tomou forma durante o curso dos
séculos segundo e terceiro em conexão com a cerimônia do batismo. Medida em que
seu lugar de origem está em causa, o texto (Mateus 28: 19) veio da cidade de
Roma. O batismo da Trindade e texto de
Mateus 28: 19, portanto, não se originou da igreja original, que começou em
Jerusalém por volta do ano 33. Era um pouco como a evidência demonstra, uma
invenção posterior do catolicismo romano completamente inventada. Muito poucos
sabem sobre estes fatos históricos”.(Introdução ao
Cristianismo por Joseph Ratzinger), p. 82/83 - Edição de 1968.
Nós adquirimos a última edição deste
livro de Ratzinger, em Português, o qual pode ser adquirido nas livrarias
católicas ou pela Internet. Basta entrar no Google com o título deste livro em
Português e fazer sua encomenda. O livro em Inglês pode ser consultado na
Internet.
No prefácio da edição em
Português, referindo-se à décima edição, Ratzinger diz que o livro “é reeditado sem alterações, excetuando-se umas pequenas correções de
lapsos e descuidos”. (pág. 27)
Dentre
as alterações efetuadas no livro adquirido, com efeito, notamos que foi
removido o descuido relacionado com a afirmação categórica de que o texto
original de Mateus 28: 19 foi acrescido pelos copistas, em atenção à fórmula
batismal romana que já vinha sendo praticada na igreja sediada em Roma.
Contudo, apesar de maquiada
na versão em Português, essa informação pode ser resgatada perfeitamente,
conforme os extratos que apresentaremos a seguir:
“A forma básica do Credo surgiu no decorrer dos séculos II e III no
contexto da prática batismal. O berço do texto é a cidade de Roma, onde era
usado na liturgia ou, mais precisamente, no rito do batismo... como resposta
tripla às três perguntas: Crês em Deus... em Cristo... no Espírito Santo?”.
p. 61 e 65.
Ora, se a fórmula básica do
Credo católico, estruturada sobre a crença nas pessoas do Pai, do Filho e do
Espírito Santo teve como berço a cidade de Roma, em fins do século II, e
aparece integralmente nas versões atuais do texto de Mateus 28: 19, escrito no
primeiro século, significa que houve uma inclusão ilegal da expressão batismal
em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo no versículo em consideração, conforme esclarecimento de roda pé da Bíblia de Jerusalém..
E segue Ratzinger, em seu
livro em Português:
“Por volta do século V,
eventualmente até antes, no século IV, surge a lenda de que o texto remontava aos próprios apóstolos; em pouco
tempo (provavelmente ainda no século V) essa versão se concretizou na suposição
de que cada um dos doze apóstolos tinha contribuído com um dos artigos em que o
símbolo era então subdividido... O símbolo originário da cidade de Roma
permaneceu desconhecido no Oriente; com grande surpresa, os representantes de Roma que participavam do
concílio da união em Florença, no século XV, receberam dos gregos a informação
de que o símbolo, supostamente criado pelos apóstolos, não era rezado por
eles”. p. 62.
Na página seguinte,
Ratzinger relaciona o Credo ou o símbolo com a fé na trindade divina:
“Acima de todas as separações e tensões, o símbolo é, inicialmente, a
expressão do fundamento comum da fé no Deus trino” - p. 63.
Na página 64, tentando minimizar o
fato da adulteração do texto apostólico, ele acrescenta:
“As diferenças entre o
Oriente e o Ocidente de que se falou anteriormente são, na verdade, diferenças
de ênfase teológica e não de
profissão de fé”.
E,
mais ao final do livro Ratzinger informa sobre a transição do dom do Espírito
Santo para a terceira pessoa da trindade da forma como segue:
Iniciação ao
Cristianismo p. 243
Na
mesma página ele justifica de forma pouco convincente a transformação do dom do
Espírito Santo na terceira pessoa da Divindade:
“Vimos que foi incluída na parte central (do Credo) toda a história de Jesus, desde a concepção
até sua volta; isso fez com que a primeira parte (referente ao Pai) passasse a ser entendida mais em sentido
histórico, de modo que era vista essencialmente em relação à história da
criação e da época pré-cristã (Creio em Deus Pai Todo Poderoso criador do
céu e da Terra). Com isso tornou-se inevitável uma abordagem
histórica de todo o texto: a terceira parte passou a ser vista como um
prolongamento da história de Cristo no dom do Espírito”. Parênteses
acrescentados.
Apesar de mais abrandadas,
estas informações confirmam categoricamente o texto do livro em Inglês.
Por outro lado, as
palavras de Ratzinger nos levaram a conferir as demais passagens bíblicas que,
a exemplo de Mateus 28: 19, se referem à Grande Comissão de Jesus, onde pudemos
perceber que não era preciso nem mesmo sair da Bíblia para compreender a
verdade que estava contida nas palavras do papa emérito. Vejamos, por exemplo,
a passagem de Marcos 16: 15-20, quando Jesus se dirige aos seus onze discípulos
que estavam reunidos à mesa:
“E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda
criatura. Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será
condenado. Eis os milagres que haverão de acompanhar aqueles que creem: em meu nome expelirão demônios; falarão
novas línguas, pegarão em serpentes; e, se, alguma coisa mortífera beberem, não
lhes fará mal; se impuserem as mãos sobre os enfermos, eles ficarão curados. De
fato o Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi recebido no céu, e
assentou-se à destra de Deus. E eles, tendo partido, pregaram em toda a parte, cooperando com eles o Senhor, e
confirmando a palavra por meio dos milagres
que se seguiam”.
Esta passagem de Marcos,
paralela à de Mateus 28: 19, em questão, não se refere à fórmula batismal nem
cita diretamente o Espírito Santo, mas assegura que o poder de Deus deveria acompanhar a pregação dos discípulos para
confirmar suas palavras por meio de milagres, a exemplo do que aconteceu com o
próprio Jesus, após Sua unção pelo Espírito Santo, às margens do rio Jordão.
Este texto de Marcos também dá crédito à tradução para o Francês de Atos 1: 8,
que examinamos inicialmente.
Ainda no cenáculo, quando
Jesus citou a Grande Comissão Evangélica, o apóstolo João fez também seu
comentário, no qual não há nenhuma referência ao batismo, senão vejamos:
“Disse-lhes, pois, Jesus outra vez: Paz seja convosco! Assim como o Pai
me enviou, Eu também vos envio. E, havendo dito isto, soprou sobre eles e
disse-lhes: Recebei o Espírito Santo (Ruach HaKodesh)” - João 20: 21-22.
Vemos aqui que o Espírito
Santo é o sopro da vida espiritual na alma vivente. A comunicação do Espírito é
a transmissão da vida de Cristo, pois reveste o que O recebe com os atributos
de Jesus. O Messias, nesta ocasião, atribuiu-lhes apenas uma dose atenuada do
Espírito Santo, mas o suficiente para eles se prepararem para recebê-Lo de
forma plena no Pentecostes.
Após esta revelação do
modo como Jesus comunicou-lhes o Espírito Santo, assoprando sobre eles,
dando-Lhe o mesmo sentido que tem o nosso espírito, passou a dar ênfase à
estratégia divina de fortalecer a pregação dos discípulos por meio de milagres,
a exemplo do que aconteceu com o próprio Cristo:
“Na verdade fez Jesus diante dos discípulos muitos outros milagres que
não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que
creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida
em Seu nome” - João 20: 30-31.
Quando, no domingo de
Sua ressurreição, Jesus apareceu a dois de seus discípulos que estavam a
caminho do vilarejo de Emaús, repetiu novamente a Grande Comissão Evangélica,
dizendo-lhes:
“Assim está escrito que
o Cristo havia de padecer, e ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia, e
que em Seu nome se pregasse
arrependimento para remissão dos pecados, a todas as nações, começando de
Jerusalém. Vós sois testemunhas destas coisas. Eis que envio sobre vós a
promessa de Meu Pai; permanecei, pois, na cidade, até que do alto sejais
revestidos de poder” - Lucas
24: 46-49.
Considerando que em Atos 1: 8
é o mesmo Lucas que redige o texto, é lógico que neste verso ele esteja
tratando do mesmo poder, o Espírito Santo, vindo para revestir os
discípulos.
Das palavras: “que do alto sejais revestidos de poder”,
citadas no verso 49, podemos inferir com segurança a mensagem: que do alto
sejais revestidos do Espírito Santo, citadas pelo mesmo Lucas em Atos 1: 8,
confirmando, mais uma vez a tradução do francês Louis Segond.
Até aqui não
encontramos nenhuma referência à fórmula batismal do Credo romano, nas
passagens em que a Grande Comissão foi repetida. Não temos, portanto, nenhuma
razão para duvidar das palavras de Ratzinger. Portanto, segundo a nossa
metodologia, as palavras: batismo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo
são totalmente destituídas de sentido, em relação ao restante da Bíblia,
devendo por isso serem descartadas.
Se a pregação para a
remissão dos pecados devia ser em nome de Jesus, a cerimônia do batismo, não
referida em detalhes, nesta ocasião, deveria também ser em Seu nome, ainda com
maior razão, pois que as pessoas se batizavam para se tornar cristãs e terem
vida eterna em Seu nome, pois “aquele que
tem o Filho, tem a vida: aquele que não tem o Filho de Deus não tem a vida.
Estas coisas vos escrevi a fim de saberdes que tendes a vida eterna, a vós
outros que credes em o nome do Filho de Deus” – I João 5: 12-13.
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