sábado, 3 de fevereiro de 2018

A história da trindade divina

                  Esta ideia de uma terceira Entidade divina só ganhou expressão em fins do século II e início do século III, em decorrência do rito batismal que já vinha sendo praticado em Roma, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, bem como do Credo católico, estruturado na crença nestas três ‘pessoas’ divinas. E para dar consistência à essas iniciativas romanas, os tradutores e/ou copistas adicionaram as palavras que se encontram na segunda parte de Mateus 28: 19, negritadas a seguir:
                  “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado... – Mateus 28: 19-20
                   Estas palavras negritadas atribuídas a Cristo nunca saíram de Sua boca e nem aparecem em nenhum outro texto em que esta Grande Comissão foi repetida. Segundo Joseph Ratzinger, o papa emérito Bento XVI, o texto negritado é totalmente alheio ao Novo Testamento, tendo sido uma invencionice de Roma. Vejamos a íntegra do seu depoimento na primeira edição de seu livro: Introduction to Christianity, p. 82-83:
                   “The basic form of our (Matthew 28-19 Trinitarian) profession of Faith took shape during the course of the second and third centuries in connection with the cerimony of baptism. So far as its place of origin is concerned, the text (Matthew 28: 19) came from the city of Rome. The trinity baptism and text of Matthew 28: 19 therefore did not originate from the original church that started in Jerusalem around AD 33. It was rather as the evidence proves a later invention of Roman Catholicism completely fabricated. Very few know about these historical facts”. Introduction to Christianity by Joseph Ratzinger.
                    Traduzindo, temos:                   
                   “A forma básica da nossa profissão de fé trinitariana (Mateus 28: 19) tomou forma durante o curso dos séculos segundo e terceiro em conexão com a cerimônia do batismo. Medida em que seu lugar de origem está em causa, o texto (Mateus 28: 19) veio da cidade de Roma. O batismo da Trindade e texto de Mateus 28: 19, portanto, não se originou da igreja original, que começou em Jerusalém por volta do ano 33. Era um pouco como a evidência demonstra, uma invenção posterior do catolicismo romano completamente inventada. Muito poucos sabem sobre estes fatos históricos”.(Introdução ao Cristianismo por Joseph Ratzinger), p. 82/83 - Edição de 1968.
                  Nós adquirimos a última edição deste livro de Ratzinger, em Português, o qual pode ser adquirido nas livrarias católicas ou pela Internet. Basta entrar no Google com o título deste livro em Português e fazer sua encomenda. O livro em Inglês pode ser consultado na Internet.                    
                 No prefácio da edição em Português, referindo-se à décima edição, Ratzinger diz que o livro “é reeditado sem alterações, excetuando-se umas pequenas correções de lapsos e descuidos”. (pág. 27)
                 Dentre as alterações efetuadas no livro adquirido, com efeito, notamos que foi removido o descuido relacionado com a afirmação categórica de que o texto original de Mateus 28: 19 foi acrescido pelos copistas, em atenção à fórmula batismal romana que já vinha sendo praticada na igreja sediada em Roma.         
                  Contudo, apesar de maquiada na versão em Português, essa informação pode ser resgatada perfeitamente, conforme os extratos que apresentaremos a seguir:
                   “A forma básica do Credo surgiu no decorrer dos séculos II e III no contexto da prática batismal. O berço do texto é a cidade de Roma, onde era usado na liturgia ou, mais precisamente, no rito do batismo... como resposta tripla às três perguntas: Crês em Deus... em Cristo... no Espírito Santo?”. p. 61 e 65.
                    Ora, se a fórmula básica do Credo católico, estruturada sobre a crença nas pessoas do Pai, do Filho e do Espírito Santo teve como berço a cidade de Roma, em fins do século II, e aparece integralmente nas versões atuais do texto de Mateus 28: 19, escrito no primeiro século, significa que houve uma inclusão ilegal da expressão batismal em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo no versículo em consideração, conforme esclarecimento de roda pé da Bíblia de Jerusalém..
                     E segue Ratzinger, em seu livro em Português:                    
                    “Por volta do século V, eventualmente até antes, no século IV, surge a lenda de que o texto remontava aos próprios apóstolos; em pouco tempo (provavelmente ainda no século V) essa versão se concretizou na suposição de que cada um dos doze apóstolos tinha contribuído com um dos artigos em que o símbolo era então subdividido... O símbolo originário da cidade de Roma permaneceu desconhecido no Oriente; com grande surpresa, os representantes de Roma que participavam do concílio da união em Florença, no século XV, receberam dos gregos a informação de que o símbolo, supostamente criado pelos apóstolos, não era rezado por eles”. p. 62.
                       Na página seguinte, Ratzinger relaciona o Credo ou o símbolo com a fé na trindade divina:
                      “Acima de todas as separações e tensões, o símbolo é, inicialmente, a expressão do fundamento comum da fé no Deus trino” -  p. 63.
                      Na página 64, tentando minimizar o fato da adulteração do texto apostólico, ele acrescenta:
                      “As diferenças entre o Oriente e o Ocidente de que se falou anteriormente são, na verdade, diferenças de ênfase teológica e não de profissão de fé”.
                      E, mais ao final do livro Ratzinger informa sobre a transição do dom do Espírito Santo para a terceira pessoa da trindade da forma como segue:       

 


 Iniciação ao Cristianismo p. 243           


                     Na mesma página ele justifica de forma pouco convincente a transformação do dom do Espírito Santo na terceira pessoa da Divindade:
                 “Vimos que foi incluída na parte central (do Credo) toda a história de Jesus, desde a concepção até sua volta; isso fez com que a primeira parte (referente ao Pai) passasse a ser entendida mais em sentido histórico, de modo que era vista essencialmente em relação à história da criação e da época pré-cristã (Creio em Deus Pai Todo Poderoso criador do céu e da Terra). Com isso tornou-se inevitável uma abordagem histórica de todo o texto: a terceira parte passou a ser vista como um prolongamento da história de Cristo no dom do Espírito”. Parênteses acrescentados.       
                Apesar de mais abrandadas, estas informações confirmam categoricamente o texto do livro em Inglês.
                       Por outro lado, as palavras de Ratzinger nos levaram a conferir as demais passagens bíblicas que, a exemplo de Mateus 28: 19, se referem à Grande Comissão de Jesus, onde pudemos perceber que não era preciso nem mesmo sair da Bíblia para compreender a verdade que estava contida nas palavras do papa emérito. Vejamos, por exemplo, a passagem de Marcos 16: 15-20, quando Jesus se dirige aos seus onze discípulos que estavam reunidos à mesa:
                     “E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado. Eis os milagres que haverão de acompanhar aqueles que creem: em meu nome expelirão demônios; falarão novas línguas, pegarão em serpentes; e, se, alguma coisa mortífera beberem, não lhes fará mal; se impuserem as mãos sobre os enfermos, eles ficarão curados. De fato o Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi recebido no céu, e assentou-se à destra de Deus. E eles, tendo partido, pregaram em toda a parte, cooperando com eles o Senhor, e confirmando a palavra por meio dos milagres que se seguiam”.
                      Esta passagem de Marcos, paralela à de Mateus 28: 19, em questão, não se refere à fórmula batismal nem cita diretamente o Espírito Santo, mas assegura que o poder de Deus deveria acompanhar a pregação dos discípulos para confirmar suas palavras por meio de milagres, a exemplo do que aconteceu com o próprio Jesus, após Sua unção pelo Espírito Santo, às margens do rio Jordão. Este texto de Marcos também dá crédito à tradução para o Francês de Atos 1: 8, que examinamos inicialmente.
                      Ainda no cenáculo, quando Jesus citou a Grande Comissão Evangélica, o apóstolo João fez também seu comentário, no qual não há nenhuma referência ao batismo, senão vejamos:
                    “Disse-lhes, pois, Jesus outra vez: Paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou, Eu também vos envio. E, havendo dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo (Ruach HaKodesh)” - João 20: 21-22.
                     Vemos aqui que o Espírito Santo é o sopro da vida espiritual na alma vivente. A comunicação do Espírito é a transmissão da vida de Cristo, pois reveste o que O recebe com os atributos de Jesus. O Messias, nesta ocasião, atribuiu-lhes apenas uma dose atenuada do Espírito Santo, mas o suficiente para eles se prepararem para recebê-Lo de forma plena no Pentecostes.
                      Após esta revelação do modo como Jesus comunicou-lhes o Espírito Santo, assoprando sobre eles, dando-Lhe o mesmo sentido que tem o nosso espírito, passou a dar ênfase à estratégia divina de fortalecer a pregação dos discípulos por meio de milagres, a exemplo do que aconteceu com o próprio Cristo:
                     “Na verdade fez Jesus diante dos discípulos muitos outros milagres que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em Seu nome- João 20: 30-31.
                        Quando, no domingo de Sua ressurreição, Jesus apareceu a dois de seus discípulos que estavam a caminho do vilarejo de Emaús, repetiu novamente a Grande Comissão Evangélica, dizendo-lhes:
                        “Assim está escrito que o Cristo havia de padecer, e ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia, e que em Seu nome se pregasse arrependimento para remissão dos pecados, a todas as nações, começando de Jerusalém. Vós sois testemunhas destas coisas. Eis que envio sobre vós a promessa de Meu Pai; permanecei, pois, na cidade, até que do alto sejais revestidos de poder” - Lucas 24: 46-49.
                 Considerando que em Atos 1: 8 é o mesmo Lucas que redige o texto, é lógico que neste verso ele esteja tratando do mesmo poder, o Espírito Santo, vindo para revestir os discípulos.                           
                    Das palavras: “que do alto sejais revestidos de poder”, citadas no verso 49, podemos inferir com segurança a mensagem: que do alto sejais revestidos do Espírito Santo, citadas pelo mesmo Lucas em Atos 1: 8, confirmando, mais uma vez a tradução do francês Louis Segond.   
                          Até aqui não encontramos nenhuma referência à fórmula batismal do Credo romano, nas passagens em que a Grande Comissão foi repetida. Não temos, portanto, nenhuma razão para duvidar das palavras de Ratzinger. Portanto, segundo a nossa metodologia, as palavras: batismo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo são totalmente destituídas de sentido, em relação ao restante da Bíblia, devendo por isso serem descartadas. 
                           Se a pregação para a remissão dos pecados devia ser em nome de Jesus, a cerimônia do batismo, não referida em detalhes, nesta ocasião, deveria também ser em Seu nome, ainda com maior razão, pois que as pessoas se batizavam para se tornar cristãs e terem vida eterna em Seu nome, pois “aquele que tem o Filho, tem a vida: aquele que não tem o Filho de Deus não tem a vida. Estas coisas vos escrevi a fim de saberdes que tendes a vida eterna, a vós outros que credes em o nome do Filho de Deus” – I João 5:  12-13.

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