domingo, 4 de fevereiro de 2018

A primeira visão de Daniel

O profeta Daniel estava com mais de setenta anos quando recebeu a sua primeira visão. O reino de Babilônia já se encontrava em declínio, no curso do primeiro ano de Belsazar, o seu último monarca. Ciro já era manchete entre os medos e persas e Daniel sabia que ele seria o libertador do seu povo, pois que fora citado, nominalmente nas profecias, há mais de cem anos de seu tempo, como segue:
“Assim diz o Senhor ao Seu ungido (Messias), a Ciro, a quem tomo pela mão direita, para abater as nações ante a sua face; e descingir os lombos dos reis, para abrir diante dele as portas, que não se fecharão” - Isaías 45: 1. Parêntese acrescentado;
 Foi neste contexto prévio à libertação de Israel do cativeiro babilônico que Daniel teve a sua primeira visão, vendo três bestas selvagens e uma estranha, com dez chifres, subindo do mar agitado por ventos fortes e, logo fez um resumo desta experiência que teve dormindo, da forma como segue:
“No primeiro ano de Belsazar, rei da Babilônia, teve Daniel um sonho e visões ante seus olhos, quando estava no seu leito; escreveu logo o sonho e relatou a suma de todas as coisas. Falou Daniel e disse: Eu estava olhando, durante a minha visão da noite, e eis que os quatro ventos do céu agitavam o mar grande. Quatro animais, grandes, diferentes uns dos outros, subiam do mar. O primeiro era como leão e tinha asas de águia; enquanto eu olhava, foram-lhe arrancadas às asas, foi levantado da terra e posto em dois pés, como homem; e lhe foi dada mente de homem. Continuei olhando, e eis aqui o segundo animal, semelhante a um urso, o qual se levantou sobre um dos seus lados; na boca, entre os dentes, trazia três costelas; e lhe diziam: levanta-te, devora muita carne. Depois disto, continuei olhando, e eis aqui outro, semelhante a um leopardo, e tinha nas costas quatro asas de ave; tinha também este animal quatro cabeças, e foi-lhe dado domínio. Depois disto, eu continuava olhando nas visões da noite, e eis aqui o quarto animal, terrível, espantoso e sobremodo forte, o qual tinha grandes dentes de ferro; ele devorava, e fazia em pedaços, e pisava aos pés o que sobejava; era diferente de todos os animais que apareceram antes dele e tinha dez chifres. Estando eu a observar os chifres, eis que entre eles subiu outro pequeno, diante do qual três dos primeiros chifres foram arrancados; e eis que neste chifre havia olhos, como os de homem, e uma boca que falava com insolência”.  Daniel 7: 1-8.
O nosso desafio, neste momento, deve limitar-se a entender o significado destes símbolos, o que nos é facilitado pelo próprio Daniel. Podemos, ainda, recorrer a outras passagens das Escrituras, para ampliar a nossa compreensão. A figura do grande mar batido por fortes ventos, por exemplo, se bem que tenha sido apresentada ao profeta como um pano de fundo da primeira parte, ela detém o seu próprio significado.
O profeta Isaías, no passado, já havia relacionado esta figura com a passagem das nações pagãs, como a palha levada pelo vento, em comparação com a estabilidade temporal do povo de Deus. Vejamos as suas próprias palavras:
“Ai do bramido dos grandes povos que bramam como bramam os mares, e do rugido das nações que rugem como rugem as impetuosas águas. Rugirão as nações, como rugem as muitas águas, mas Deus as repreenderá e fugirão para longe; serão afugentadas como as palhas dos montes diante do vento, e como pó levado pelo tufão. Ao amanhecer eis que há pavor, e antes que amanheça o dia, já não existem. Este é o quinhão daqueles que nos despojam, e a sorte daqueles que nos saqueiam”. Isaías 17: 12-14.
O apóstolo João, em Apocalipse 17: 15 deu este mesmo significado para as águas, como segue:

“As águas que viste... são povos, multidões, nações e línguas”.
E o profeta Jeremias, tratando dos ventos que espalhariam os habitantes de Elão, uma das províncias de Babilônia, diz o que os mesmos representam para Deus: “o brasume da Minha ira, diz o Senhor... a espada” contra os opressores do Seu povo. Jeremias 49: 35-37.
A partir destes antecedentes podemos esperar estar tratando em Daniel 7 da sucessão de reinos e nações, por meio de grandes guerras de conquista, envolvendo a confrontação de grandes exércitos pagãos, os quais sempre proporcionavam algum tipo de consequência danosa, mas relativamente passageira, para o povo de Deus.
O Senhor podia usar nações pagãs como parte de Seu plano redentor mas, enquanto estes opressores passavam, os filhos de Deus, mesmo que em minoria, permaneciam, temporalmente, até que chegasse o dia em que estariam livres para sempre, porque, nesta visão do profeta, a obra de Deus prosseguiu, sem interrupção... “Até que veio o Ancião de Dias, e fez justiça aos santos do Altíssimo; e veio o tempo em que os santos possuíram o reino”. Daniel 7: 22.
A sequência do estudo e da própria História confirmará nossa dedução. Passemos, pois, ao significado dos quatro animais. A interpretação é dada pelo próprio Daniel:
“Estes grandes animais, que são quatro, são quatro reis, que se levantarão da Terra”. Daniel 7: 17.
Observemos que a palavra rei, neste capítulo, se alterna com a palavra reino, como em Daniel 7: 23:
“O quarto animal será um quarto reino na Terra...”.
Assim sendo, a visão de Daniel parece reprisar o sonho de Nabucodonosor no qual a estratificação da imagem de diferentes metais, no capítulo 2, apresentou quatro reinos que se sucediam.
Daniel 2: 37-38 diz, inclusive, que o primeiro reino é Babilônia, a cabeça de ouro.
Daniel 7 não identifica o primeiro reino mas o representa como um leão com asas de águia, que perde as asas, ficando de pé como um homem. Seria o leão, o rei dos animais, um símbolo homólogo à cabeça de ouro, o rei dos minerais?
A resposta é positiva porque em Jeremias 50: 44, Babilônia, ao atacar Judá, é considerada como:
“O leãozinho que sobe da floresta Jordânia contra o rebanho que está no pasto verde”.
 De fato, o leão dourado, facilmente encontrado no sítio arqueológico de Babilônia, é reconhecido como um símbolo indiscutível deste antigo império.
Quanto ao fato do leão ser alado, vejamos como Habacuque 1: 8, um profeta contemporâneo de Daniel, se refere aos cavaleiros babilônicos:
“chegam de longe e voam como águia que se precipita a devorar”.
Assim, percebemos que a inclusão do símbolo da águia, a rainha das aves, associada à majestade do leão é, também, apropriado para caracterizar os esplendores de Babilônia, a cabeça de ouro da estátua do capítulo 2.
O fato das asas serem arrancadas do leão, que é posto em pé como homem sugere a humilhação sofrida pelo rei Nabucodonosor, na sua experiência relatada em Daniel 4, quando ele foi transformado numa besta posta ao relento. Contudo, ele foi recolocado em pé, no comando do seu reino, após reconhecer, definitivamente, que Deus é o único que está no controle de todas as coisas.
O fato de que “lhe foi dada mente de homem”, pode se referir à reversão do seu quadro clínico, pois que, em sua queda, fora-lhe dado “coração de animal”, conforme Daniel 4: 16.
A perda das asas de águia podem também traduzir a derrocada vertiginosa do império, após a morte do grande rei. Os três últimos monarcas foram de mal a pior porque voltaram a governar com a sabedoria humana e não com a sabedoria divina. Não valorizaram a experiência acumulada pelo velho monarca e nem mesmo respeitaram os utensílios sagrados trazidos do templo de Deus.
O próximo animal, na sequência, segundo a analogia com o capítulo 2, deve representar os medos e persas, pois que este império foi o que sucedeu o babilônico. E, neste sentido, a primazia dos persas foi bem representada pelo lado mais alto do urso que trazia três costelas na boca. Estas costelas não foram definidas pelo profeta, mas devem representar além da conquista de Babilônia, a conquista precedente de outros dois reinos pelos exércitos de Ciro: o Egito e a Lídia.
Quanto ao leopardo alado, ele é um excelente símbolo para Alexandre, o Grande, que, por meio de ataques rápidos e inesperados, alcançou dominar o Império Medo-Persa em apenas cinco anos, morrendo de malária, sete anos mais tarde, com a idade de trinta e dois anos. As quatro cabeças do leopardo representam, certamente, a divisão da Grécia em quatro reinos, após a morte súbita de Alexandre, o seu primeiro rei. Detalhes complementares serão supridos nas próximas visões do profeta.
O quarto animal, terrível, espantoso, e sobremodo forte, com dentes de ferro e unhas de bronze (verso 19) foi o que mais chamou a atenção de Daniel; especialmente pela evolução dos dez chifres na cabeça, dos quais três foram removidos para dar lugar a um chifre pequeno, com olhos de homem e uma boca que falava com insolência. Este estranho animal só pode representar o Império Romano, caracterizado em Daniel 2 pelas pernas de ferro da imagem, “pois o ferro tudo quebra e esmiúça” - Dan 2: 40.
 A explicação dos dez chifres é apresentada nos versículos 24 e 25:
“... correspondem a dez reis que se levantarão daquele mesmo reino e depois deles se levantará outro, o qual será diferente dos primeiros, e abaterá três reis. Proferirá palavras contra o Altíssimo, magoará os santos do Altíssimo e cuidará em mudar os tempos e a Lei e os santos lhe serão entregues nas mãos, por um tempo, dois tempos e metade de um tempo”.
Estes dez reis que se levantaram de Roma imperial foram os que deram origem à divisão da Europa Ocidental em dez países. Como esta partilha foi concluída em 476 d. C. o chifre pequeno além de romano, só poderia se levantar após esta data. O fato de Daniel 7: 21 dizer que ele “Fazia guerra contra os santos e prevalecia contra eles” e que dominaria por 1260 anos literais, aponta inquestionavelmente para o papado, cujo poder universal foi estabelecido em 538 d. C. e prevaleceu até 1798 d. C. Neste período, segundo os historiadores mais conservadores, o papado levou à morte mais de 50 milhões de cristãos, cujo único crime foi a sua fidelidade às Escrituras. A principal razão para tamanha perseguição foi a simples rejeição dos dogmas pagãos que foram sendo introduzidos na Igreja cristã, dentre os quais salientamos o domingo como dia de adoração, introduzido pelo imperador Constantino em 321 e a Trindade divina, introduzida no Concílio de Constantinopla, em 381.
Assim, este reino se diferenciou dos demais devido ao seu caráter ‘religioso’.
Em nome da fé conseguiu abater três nações já estabelecidas na Europa: os Hérulos, em 493 d. C.; os Vândalos, em 534 d. C. e os Ostrogodos, em 538 d. C. porque não compartilhavam com suas ideias a respeito da divindade de Jesus Cristo.
Quanto às “palavras contra o Altíssimo” elas se referem ao fato deste poder, dito religioso, considerar-se um substituto de Deus na Terra, defendendo, inclusive, o direito de perdoar pecados, o que é uma prerrogativa exclusiva de Deus. 
A segunda parte da visão de Daniel 7 é introduzida pelos versos de 9 a 14. Nela constatamos uma mudança radical de cenário. As bestas selvagens, representantes de nações pagãs em disputa na Terra, deram lugar a paz, a ordem e a solenidade do Santuário celestial, como segue:
“Continuei olhando, até que foram postos uns tronos e o Ancião de Dias Se assentou; Sua veste era branca como a neve, e os cabelos da cabeça como a pura lã; o Seu trono era chamas de fogo, cujas rodas eram fogo ardente. Um rio de fogo manava e saía de diante dele; milhares de milhares O serviam, e miríades de miríades estavam diante dele; assentou-se o tribunal, e se abriram os livros”. Daniel 7:9-10.
Além da extraordinária presença de Deus, o Pai, ocupando o trono do Universo, sobressaía também, no amplo e iluminado espaço, as incontáveis criaturas que ali se encontravam para servi-Lo.
O livro de Apocalipse 5: 11, descrevendo a mesma cena, fala de “milhões de milhões de anjos”. Esta segunda parte da profecia foca, portanto, o momento da instalação do tribunal de Deus, para julgar todos aqueles cujas provas se encontram registradas nos livros que foram abertos.
Na Verdade Presente nº 8 trataremos de todos os importantes e esclarecedores detalhes da obra divina que vem se desenvolvendo nesse tribunal.
Mas, só o fato destes registros precisos e completos serem mantidos no céu para testemunhar sobre a nossa conduta deveria se constituir numa solene reflexão para todos.
É certo que o sacrifício de Jesus na cruz foi suficiente para nos assegurar a vitória. Ficou faltando, porém, verificar-se quem, de nossa parte, aceitou o sacrifício da cruz. Isto porque, para a redenção eterna, não basta reconhecer o Homem do calvário; é preciso, também, viver pela fé.
Assim, concluída a instalação do tribunal, antes de prosseguir na cena, Daniel retorna para o tema do verso 8, para adiantar os resultados do juízo sobre as nações e sobre o chifre pequeno que tinha olhos de homem e uma boca que falava com insolência:
“Então, estive olhando, por causa da voz das insolentes palavras que o chifre proferia; estive olhando e vi que o animal foi morto, e o seu corpo desfeito e entregue para ser queimado. Quanto aos outros animais, foi-lhe tirado o domínio; todavia, foi-lhe dada prolongação de vida por um prazo e um tempo. Daniel 7: 11-12.
O profeta deixa claro que o domínio dos imperadores é-lhes dado por um poder superior (Daniel 7: 6b), sendo-lhes retirado pelo mesmo poder, após o prazo que lhes foi designado.
Todos nós cristãos deveremos passar também pelo crivo deste juízo de Deus, conforme II Coríntios 5: 10:
“Porque importa que todos nós compareçamos perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o bem ou o mal que tiver feito por meio do corpo”.
 Assim, a condenação do chifre pequeno deveria nos servir como uma advertência.
O chifre pequeno foi condenado porque tinha olhos de homem, o que significa um símbolo da filosofia que se estriba na sabedoria humana. Deste ponto de vista o papado está mais para ser um filósofo do que um humilde seguidor das Escrituras, sendo condenado por desacatar a sabedoria divina, introduzindo imagens no culto, o batismo por aspersão em crianças, a doutrina do purgatório, entre muitas outras doutrinas, sem a devida fundamentação bíblica.
No verso 27, a transitoriedade tanto dos reinos pagãos como deste reino religioso, representado pelo chifre pequeno, é novamente contrastada com a estabilidade futura dos filhos de Deus:
“O reino e o domínio, e a majestade dos reinos debaixo de todo o céu, serão dados ao povo dos santos do Altíssimo; o Seu reino será reino eterno, e todos os domínios O servirão e Lhe obedecerão”.
Voltando à visão celestial, na altura de Daniel 7: 13-15, temos a conclusão desta impressionante visão, colocando em destaque o glorioso destino do Filho do Homem, o qual é contrastado com a sorte que terá o chifre pequeno, Seu pretenso substituto:
“Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha com as nuvens do céu um como o Filho do Homem, e dirigiu-se ao Ancião de Dias, e o fizeram chegar até ele. Foi-lhe dado domínio, e glória, e o reino, para que os povos, nações, e homens de todas as línguas O servissem; o Seu domínio é domínio eterno, que não passará, e o Seu reino jamais será destruído. Quanto a mim, Daniel, o meu espírito foi alarmado dentro de mim, e as visões da minha cabeça me perturbaram” - Daniel 7: 13-15.   
Verificamos aqui a movimentação de Jesus Cristo, do lugar Santo em direção à corte celestial estabelecida no Santíssimo, a fim de exercer a função de juiz, conforme encontramos no Evangelho de São João 5: 22:
“E o Pai a ninguém julga, mas ao Filho confiou todo o julgamento”.
Esta é a razão do Filho se dirigir à presença do Pai. No livro da vida, que Ele apanha das mãos do Pai (Apocalipse 5: 1 e 8), estão registrados os nomes de todos os que um dia participaram de Sua obra na Terra, os quais são os potenciais herdeiros do Seu reino. Neste passo das Escrituras, Jesus Cristo se dirige ao lugar Santíssimo para verificar quem permaneceu fiel, a fim de colocá-lo na lista definitiva dos que receberão o galardão por ocasião de Seu retorno à Terra, conforme cita Apocalipse 22: 12:
Eis que venho sem demora, e Comigo está o galardão que tenho para retribuir a cada um segundo as suas obras”.
O apóstolo João também ficou perturbado porque compreendeu a transcendental importância desta cena, e ante a expectativa criada pela mesma, chorou convulsivamente, conforme encontramos em Apocalipse 5: 4-5:
“... e eu chorava muito, porque ninguém foi achado digno de abrir o livro, nem mesmo de olhar para ele. Todavia um dos anciãos me disse: Não chores; eis que o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, venceu para abrir o livro e os seus sete selos”.
Como nosso caso ainda não foi concluído, deveríamos dar atenção às palavras que encontramos em Atos 17: 30-31:
“Ora, não levou Deus em conta os tempos da ignorância; agora, porém, notifica aos homens que todos em toda a parte se arrependam; porquanto estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça por meio de um varão que destinou e acreditou diante de todos, ressuscitando-o dentre os mortos”.
Concluída a impressiva visão, o profeta Daniel se dirigiu ao anjo que estava mais próximo, pedindo-lhe uma explicação de tudo aquilo que acabara de ver, como segue:
“Cheguei-me a um dos que estavam perto e lhe pedi a verdade a cerca de tudo isto. Assim, ele me disse e me fez saber a interpretação das coisas”. Daniel 7: 16.
Logo, a interpretação que estamos examinando é fiel, pois que procede do alto.
O anjo, após fazer referência ao passamento dos impérios mundiais, expõe pela terceira vez as bênçãos reservadas para os filhos de Deus que forem aprovados:
 “Mas os santos do Altíssimo receberão o reino e o possuirão para todo o sempre, de eternidade em eternidade” - verso 18.
Apesar de ter recebido a interpretação de sua visão, nem tudo ficou claro para o profeta, uma vez que a sua preocupação era quanto à restauração de Israel, no curto prazo. No verso 28 ele conclui o capítulo, dizendo:

“Aqui terminou o assunto. Quanto a mim, Daniel, os meus pensamentos muito me perturbaram, e o meu rosto se empalideceu; mas guardei estas coisas no coração”.   

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