domingo, 4 de fevereiro de 2018

A Tenda da Congregação

O nome tabernáculo significa tenda. Como o povo de Israel vivia em tendas, Deus quis ser como o seu povo, habitando, Ele mesmo, numa tenda.
            Em Êxodo 25: 8 temos a referência de que o santuário foi erigido como um símbolo da presença de Deus com Seu povo, devendo se constituir na morada terrestre do Altíssimo.
Deus demonstrava, assim, que não era como as divindades pagãs, que eram fixas. Ao contrário, o Eterno se manifestava como o Deus que podia acompanhar seus adoradores, viajar com eles por todos os lugares.
            Quando um pagão deixava a sua cidade, nela também deixava o seu deus. Mas quando Israel se deslocava na estrada, partia com o seu Deus. Esse é um sentimento que nós também devemos ter. Só que a presença de Deus não tem mais um símbolo visível: a Shekinah! Hoje, nós devemos viver pela fé, como o afirma Paulo em Hebreus 10: 38:
            Todavia, o Meu justo viverá pela fé...”.
A situação, no entanto, permanece muito semelhante. Vou contar-lhes uma experiência pessoal, apenas para ilustrar o que estou afirmando, de como Deus viaja, ainda hoje, com os Seus filhos. Eu vinha de minha propriedade rural situada no interior de Goiás, para casa, no Lago Norte/DF. Vinha só e estava a 50 quilômetros de Planaltina de Goiás, quando rebentou a mangueira do radiador. O motor esquentou e tive de encostar o carro e seguir a pé. A noite já vinha perto e eu não conhecia ninguém. Uma carona, naquela hora, só por um milagre, porque além da estrada ser muito pouco transitada, ninguém se arriscava viajar ao escurecer. Isto porque andar a pé, à noite, no interior de Goiás é muito perigoso.
Eu pensava em fazer uma oração, quando avistei, ao longe, outra caminhonete que levantava poeira, na direção de Planaltina. Eu pensei: puxa! O Senhor bem poderia ter segurado aquela condução por alguns minutos, para me levar! Mas, enquanto a caminhonete levantava poeira, eu, há um quilômetro atrás, fazia uma oração semelhante a do cego Bartimeu: Senhor tenha misericórdia de mim!
Quando abri meus olhos, não mais que numa fração de segundos vi maravilhado, aquela caminhonete fazer o retorno. Será que ela não vai para Planaltina, como pensei? A caminhonete voltou cerca de quinhentos metros, em minha direção e parou à beira da estrada, ao lado de três peões. O motorista parecia estar dando algumas instruções àqueles homens. Eu, vendo aquela cena, apertei meus passos. Havia, ainda, alguns raios de sol e percebi que o proprietário da caminhonete me avistou ao longe e fez sinal para que me aproximasse. Então eu corri e, chegando ao local, ele me perguntou para onde eu ia. Falei rapidamente do meu problema e disse que precisava chegar a algum lugar e conseguir uma condução para voltar para casa, no Lago Norte de Brasília. Ele, então, me convidou para entrar, dizendo que ia para o mesmo lado. Eu, ainda perplexo, subi na carroceria, pois a cabine já estava com três pessoas. Ele fez a volta, novamente, e seguiu na direção de Planaltina. Logo adiante ele parou e insistiu para que eu entrasse na cabine. Eu, então, me apertei, ali, com eles. O motorista deu-me água e explicou-me que foi por um milagre que ele estava ali, pois costumava sempre sair da sua fazenda ao meio dia, em direção de Taguatinga/DF, onde morava. Naquele dia, havia fogo nas pastagens e ele precisou apagá-lo antes de partir. E só voltou porque, naquele incêndio, um bezerro quebrou a pata, foi sacrificado, e ele sentiu, de repente, a necessidade imperiosa de dar mais algumas instruções aos peões, a respeito daquele animal, acrescentando que ainda conversava com eles quando me avistou.
Não preciso dizer-vos que aquele desconhecido deixou-me na porta de minha casa, quando já passava das nove horas da noite. Deus, com certeza sabia que eu ia precisar de uma carona e permitiu que um incêndio atrasasse a saída daquele cidadão. E me parece lógico que a morte do bezerro fosse providencial para que ele pudesse atender minha oração. Louvado seja Deus!
            Sim, meus amigos, Deus ainda anda conosco! Só que Sua presença não é visível, porque hoje devemos viver pela fé! A Shekinah divina vai dentro do nosso coração!
Antes de irmos à parte mais significativa para nós, ao interior do santuário, vamos considerar os materiais componentes da tenda da congregação. Estes eram de dois tipos. Abramos nossas Bíblias em Êxodo 26: 15 e 29:
“Farás, também, de madeira de acácia as tábuas para o tabernáculo, as quais serão colocadas verticalmente... cobrirás de ouro as tábuas, e de ouro farás as suas argolas, pelas quais hão de passar as travessas; e cobrirás também de ouro as travessas”.
As tábuas para a armação do tabernáculo, portanto, seriam de acácia, recobertas de ouro. Elas têm muito a nos dizer. Inicialmente elas não eram tábuas. Elas faziam parte de árvores, com troncos, raízes, ramos e folhas. Tudo aquilo que um vegetal necessita para viver! Elas nasceram em um solo do qual não pensavam jamais deixar e de onde elas retiravam o sumo nutritivo, indispensável para o seu crescimento. Quando chegasse o momento de morrer, o próprio solo terminaria por lhes absorver. Elas tinham, assim, um destino claramente traçado, até que um dia isto seria bruscamente mudado! Homens, vindos de longe, chegaram ali e, sem nenhuma piedade colocaram os machados às suas raízes. Eles as abateram, separando-as para sempre do seu solo natal. Depois, eles as desproveram das folhas e dos galhos, deixando-as reduzidas ao estado horrível de um tronco! Mas não foi só isso! Elas foram transportadas para um lugar que jamais viram e do qual sequer sondavam a existência! Outros homens começaram, então, a chegar com toda a sorte de instrumentos de tortura, retirando-lhes as cascas, que rapidamente desapareceram! Em poucos dias, elas ficaram irreconhecíveis, transformadas em tábuas, muito bem talhadas e no esquadro. Não restava sobre suas superfícies nenhuma aspereza, nenhuma ruga, mas um polimento perfeito!
Para finalizar, outros operários vieram recobrir essas tábuas com uma espessa e magnífica camada de ouro! Quem poderia imaginar agora, o que elas haviam sido? Uma nova existência havia começado para elas. De simples árvores da floresta, vieram constituir a casa de Deus! A comparação dessas árvores com os crentes se impõe naturalmente! É muito clara! Antes de sermos cristãos, vivíamos no mundo. Nascemos lá e nele aprofundamos raízes, isto é, nele tínhamos toda a nossa razão de viver. Nele encontrávamos todos os nossos prazeres, nossas afeições. Não acreditávamos, mesmo, que pudesse haver outro lugar, outro tipo de existência. Nós éramos da terra e para a terra! Mas, de repente, tudo foi mudado pelo aparecimento do divino Lenhador que, sem perda de tempo, se atracou com seu machado (Sua cruz) à nossa raiz (natureza orgulhosa). Ele a abateu, nos convencendo do pecado, da justiça e do juízo. Cortou as raízes que nos ligavam às coisas do mundo, revelando toda a nossa corrupção! E, quando percebemos o que havia acontecido, não quisemos mais saber do mundo, exatamente como a acácia, uma árvore que depois de cortada não rebrota.
Jesus fez também desaparecer nossa folhagem: nossos méritos, nossas boas obras. Fez-se necessário separar-nos de tudo isso. Ficamos, então, como mortos. Mas essa morte não era, senão um novo começo! A preparação necessária para a nossa nova destinação! Fomos, então, transportados para bem longe de onde estávamos para um contexto que ignorávamos completamente! Para a nova vida, em Cristo Jesus, na Igreja de Deus! Depois, o divino Lenhador se transformou no divino Carpinteiro – a própria função que Ele exerceu quando estivera na Terra. Restava, com efeito, ainda muito a fazer para transformar nossos caracteres, seguidamente muito semelhantes às mais rugosas das madeiras! Reconheçamos que foi necessário se multiplicarem os golpes com a plaina, para eliminar todas as nossas asperezas! Ás vezes, nos dias de oração, ainda se ouve a madeira gemer, gritar, sob a plaina! Contudo, o Marceneiro não pode interromper o Seu trabalho! Assim, pelas dificuldades, pelas provas da vida, o Senhor continua, em nós, a Sua obra, que pode nos fazer gritar, gemer. Mas, Ele tem que continuar, sendo indispensável que essas tábuas sejam bem preparadas; que se façam perfeitamente lisas! Toda a rugosidade precisa desaparecer. Mas, para chegar a esse resultado, é necessário muito esforço, cansaço e contrariedades. Realmente, o coração humano é muito mais difícil de ser preparado do que a madeira mais dura! Contudo, em Romanos 8: 18 lemos:
“Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não são para comparar com a glória por vir a ser revelada em nós”.
Não devemos nunca nos esquecer do revestimento de ouro das tábuas! Isto significa que, pela graça de Deus, chegamos a ser participantes da natureza divina. Essa é a vontade de Deus: que nosso velho homem desapareça para deixar aparecer o novo homem feito à imagem de Cristo! Assim como a madeira ficou invisível, sob a espessa camada de ouro, fez-se necessário, também, que a nossa natureza carnal, humana, diminua a tal ponto que não se veja em nós nada mais além do que a perfeição e a glória de Jesus Cristo! Não é isso que o apóstolo Paulo escreveu aos cristãos em Roma, em Romanos 13: 14?
“Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e nada disponhais para a carne no tocante às suas concupiscências”.
Todavia, se precisar constatar que não estamos ainda no final do caminho, não devemos nos desencorajar! A distância que temos por percorrer deve nos estimular! Aquele que nos chamou é fiel, e não vai abandonar a obra que Ele começou! E não irá, com certeza, além do estritamente necessário! Lembremo-nos que, como a acácia, uma vez cortados do mundo, não devemos rebrotar. Poupemos a disciplina desnecessária!
 Em seguida, seriam confeccionadas quatro diferentes coberturas que, jogadas sobre a armação de madeira, serviriam de forração e protegeriam hermeticamente, o conjunto da construção. A primeira cobertura, a mais interna, que faria a forração, seria de linho fino, decorado, conforme as recomendações que encontramos em Êxodo 26: 1:
Farás o Tabernáculo, que terá dez cortinas de linho retorcido, estofo azul, púrpura e carmesim: com querubins as farás de obra de artista”.
Essas cortinas, vistas apenas de dentro da tenda, simbolizavam a glória da pessoa divino-humana de Jesus. Elas permaneciam invisíveis aos de fora! Só podem apreciar a beleza de Jesus aqueles que têm o privilégio de entrar no interior da tenda, como nós, seguindo o conselho de Hebreus 4: 16:
“Acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna”.
Não seria de admirar que os sacerdotes daquele tempo se acostumassem com aquela cena maravilhosa? Nós, também, devemos tomar muito cuidado para evitar a rotina diante de Deus! Os querubins desenhados evocavam a presença de seres de elevada ordem que assistem, continuamente, junto ao trono de Deus.
A segunda cobertura, de peles de cabras, nós a encontramos em Êxodo 26: 7:
“Farás, também, de pelos de cabras, cortinas para servirem de tenda sobre o tabernáculo, onze cortinas farás”.
As peles de cabras servem para nos lembrar do dia da expiação. O bode expiatório era dedicado a remover os pecados, em realidade, do Santuário e o emissário os arrostava pelo deserto, até à sua morte. Finalmente, em Êxodo 26: 14 encontramos as duas coberturas restantes:
“Também farás, de peles de carneiros e tintas de vermelho, uma cobertura para a tenda, e a outra cobertura de peles de animais marinhos”.
As peles de carneiro, tingidas na cor de sangue, evocavam o sangue remidor do Senhor e, finalmente, a última, construída de peles de golfinhos, era a mais externa e, além de ser extremamente resistente, apresentava uma cor pouco atrativa aos olhos dos curiosos. Lembrava, com certeza, a humilhação de Jesus, conforme Isaías 53: 2-3:
“Porque foi subindo como renovo perante ele, e como raiz de uma terra seca, não tinha aparência nem formosura; olhamo-Lo, mas nenhuma beleza havia que nos agradasse. Era desprezado, e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer; e como um de quem os homens escondem o rosto, era desprezado, e dele não fizemos caso”.
Com efeito, os viajantes, ao passarem pelo acampamento e verem aquele santuário, haviam de dizer: como é miserável esse Deus dos hebreus! As belezas de Cristo e do Evangelho são internas e para aqueles que desfrutam de Sua intimidade. Assim, dois elementos constituíam, essencialmente, o tabernáculo: as tábuas de madeira e as coberturas. Elas eram indispensáveis umas às outras. Separadas, elas não significavam nada.  Tentemos imaginar a armação da tenda sem as coberturas. O que iria assegurar a proteção do que estava no interior? Da mesma forma, não podemos supor a cobertura, sem a armação! Sobre o que ela repousaria? E para que serviria? Não, não podemos conceber uma parte sem a outra. Elas, unidas, no entanto, formavam um conjunto perfeito!
Na Igreja, hoje, nós encontramos essa mesma dualidade. Ela é constituída por Cristo mais os cristãos. Cristo, somente, não constitui a Igreja. Nem os cristãos, tampouco! A Igreja é formada por Cristo mais os cristãos, indissoluvelmente unidos. Os cristãos, sem Cristo, ficariam sem nenhuma proteção. Cristo também não pode sozinho, constituir a Igreja, pois foi a partir da necessidade dos cristãos que Ele veio para manifestar Sua presença e trazer Seu testemunho. Essa é uma verdade essencial. Assim ela é novamente expressa nos evangelhos de diferentes formas. Em João 15: 5 temos:
“Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanece em Mim, e Eu nele, esse dá muito fruto; porque, sem Mim, nada podeis fazer”.
Videira e ramos nesta passagem são coisas diferentes. O que representaria a videira privada de todos os seus ramos? E o que significariam os ramos, separados da videira? Assim, no plano da salvação eles não podem nada um sem os outros; mas juntos, constituem uma só e mesma planta que vive, é útil e produz frutos. A seguir temos outro exemplo:
“Ele é a cabeça do corpo da igreja. Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as coisas ter a primazia”. Colossenses 1: 18.
Paulo compara a Igreja a um corpo cuja cabeça é Cristo. A cabeça necessita do corpo para realizar Sua vontade; o corpo necessita da cabeça para ser dirigido por ela. E o que significa uma cabeça sem corpo ou um corpo sem cabeça? Aqui nós somos levados à mesma conclusão: A realidade da igreja é Cristo e seus resgatados, unidos indissoluvelmente! Esta mensagem é tão maravilhosa que, por si só, deveria nos colocar de joelhos, em adoração! Quem somos nós para tal destinação: a de formarmos uma unidade com Cristo? Podemos agora nos dirigir ao interior do tabernáculo, que era a habitação visível de Deus, no meio do Seu povo, Israel. Vejamos, antes, o que diz o apóstolo Paulo em I Coríntios 6: 16:
“Que ligação há entre o santuário de Deus e os ídolos? Porque nós somos o santuário do Deus vivente, como Ele próprio disse: Habitarei e andarei entre eles; serei o Seu Deus, e eles serão o Meu povo”.
Se, na antiga aliança, Deus declarou habitar o tabernáculo e, em confirmação a nuvem de Sua glória descia sobre ele, na nova aliança as coisas não mudaram. Deus, agora, proclama fazer Sua morada em nossos corações, como acabamos de ler: o Espírito de Deus habitará em nós. Às vezes nos perguntamos: Como é que Deus vinha habitar numa tenda tão pouco digna? Mas, nós achamos muito mais surpreendente Ele morar em corações humanos! Não é esse o mais admirável dos milagres? No próximo capítulo veremos como isso se torna possível!
Agora, entretanto, tomemos cuidado! A nuvem de glória só descia no tabernáculo após tudo haver sido consagrado ao longo de uma cerimônia solene. Fora dessas condições, o tabernáculo não passava de um edifício sujo, apesar de tudo o que possuía, sendo, portanto, incapaz de receber a glória de Deus! Em seguida, no entanto, tudo ficava diferente! As unções de sangue e de óleo faziam do tabernáculo, e de todo o seu conteúdo, uma habitação colocada à parte, purificada! Consagrada a Deus! Com toda a sujeira removida! E Deus podia, então, ali manifestar Sua presença! Da mesma maneira, Deus pode vir habitar em nossa igreja e em nossos corações; mas, jamais, antes que nós mesmos, naturalmente maus, tenhamos sido purificados pelo sangue de Cristo e regenerados pelo Seu Espírito. A exortação de Paulo: “vós sois o templo de Deus” não se dirige a qualquer pessoa, mas somente àqueles que passaram pela experiência do novo nascimento! Saibamos que a igreja só existe, em realidade, pela ação do sangue de Cristo e pelo Seu Espírito nos corações. Onde essas ações não sejam exercidas, é inócuo falar de igreja que, em tal caso, não passa de um edifício qualquer, sem nenhuma significação espiritual, apesar de todas as manifestações de fé que nela se possam ver.

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